Nós e as sombras
- ACCS
- 29 de dez. de 2018
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Por Cecília Meireles
E em redor da mesa, nós, viventes,
comíamos e falávamos, naquela noite estrangeira,
e em nossas sombras pelas paredes
moviam-se, aconchegadas como nós,
e gesticulavam, sem voz.
Éramos duplos, éramos tríplices, éramos trêmulos, à luz dos bicos de acetilene, pelas paredes seculares, densas, frias, e vagamente monumentais. Mais do que as sombras éramos irreais.
Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos. E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas, muito longe do mundo, de todas as presenças vãs envoltos em ternura e lãs.
Até hoje pergunto pelo singular destino das sombras que se moveram juntas, pelas mesmas paredes… Oh!, as sem saudades, sem pedidos, sem respostas… Tão fluidas! Enlaçando-se e perdendo-se pelo ar… Sem olhos para chorar…

Trabalho Adriane Rocha
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